O que aconteceu com os motoristas

O Lead

O motorista moderno trocou a engenharia, a dinâmica de chassi e o prazer de dirigir por telas brilhantes e caixas de sapato levantadas. Como a indústria nos convenceu a pagar uma fortuna por carros cada vez piores?


Eu não sei quanto a vocês, mas eu me vejo como um gearhead “raiz”. Eu gosto de praticamente todo tipo de carro, e consigo me divertir tanto na tocada de um projeto turbo de 400 cv quanto na simplicidade honesta de um Renault Logan 1.0 surrado. Mas a questão que eu quero colocar na mesa hoje passa longe de purismo ou potência.

Eu quero tentar entender o que raios aconteceu com os motoristas de hoje. O que levou as pessoas a se contentarem com pseudo-SUVs e com veículos cada dia mais empobrecidos, genéricos e absurdamente caros?

Não me refiro a “carro básico”, até porque carro básico não existe mais no Brasil. Falo de carros que ostentam materiais e acabamentos dignos de um brinquedo barato de camelô. Carros que saem de fábrica com defeitos crônicos conhecidos pelas próprias montadoras — que fingem demência —, e que ainda assim cobram fortunas por essa mediocridade.

Não me entra na cabeça como alguém aceita pagar 80 ou 90 mil reais num Kwid ou num Mobi, veículos que ostentam um acabamento pior do que qualquer Golzinho mil do início dos anos 2000. E olhe que a porcaria do Gol não era referência de luxo nem quando era zero km. Mas se você comparar a qualidade do plástico e a montagem das portas daquela época com o que é vendido hoje, o passado dá de dez a zero na piada do presente.

A Febre do Salto Alto

Mas o verdadeiro ápice da estupidez humana atende por três letras: SUV.

Em algum momento da história recente, o departamento de marketing das montadoras percebeu que o consumidor havia desistido de pensar. Eles olharam para um hatch compacto ordinário e disseram: “E se a gente erguer esse troço três centímetros, colar uns pedaços de plástico preto fosco nas laterais e vender pelo preço de um apartamento?” Dito e feito. Nascia o pseudo-SUV.

O motorista entra na concessionária, olha para uma caixa de sapato de salto alto e genuinamente acredita que comprou um veículo pronto para cruzar o Deserto do Saara. Ele não comprou. Ele comprou um eletrodoméstico que balança nas curvas como uma geladeira num barco a remo, bebe mais combustível porque tem a aerodinâmica de um tijolo baiano e custa o dobro na hora de trocar os pneus.

E para que serve essa ginástica financeira toda? Para subir na guia do meio-fio da padaria sem raspar o para-choque. É só isso.

Nota do Autor

O assassinato das Station Wagons — as peruas, os carros mais equilibrados e dinâmicos já projetados — é o maior crime da indústria automotiva moderna. Trocamos o centro de gravidade baixo por racks de teto decorativos que nunca vão ver uma prancha de surf na vida.

A Bandeirada

O que aconteceu foi uma vitória acachapante da embalagem sobre o conteúdo. As montadoras descobriram que não precisam gastar milhões desenvolvendo uma suspensão independente refinada ou um isolamento acústico de verdade. Basta colocar uma multimídia gigante no painel, iluminação em LED configurável e cobrir a incompetência mecânica com uma tela bonita.

Nós trocamos a física básica e o prazer de conduzir pela ilusão de status de sentar dois centímetros mais alto no trânsito. O motorista de hoje não quer dirigir; quer ser transportado num eletrodoméstico caro enquanto olha para o GPS.

É a vitória definitiva da engenharia de planilha sobre a paixão por máquinas. E o pior de tudo: o público está pagando a conta com um sorriso idiota no rosto.


Escrito por Ramon Mantelli Fundador da Scuderia 49 — A alma das máquinas, documentada em pixels.